sábado, 27 de maio de 2017

A hipótese organizacional

As vacas não parem gêmeos com frequência. Mas, quando o fazem, e se os gêmeos são dois machos ou duas fêmeas, o fazendeiro ganha um bom bônus. Por outro lado, durante centenas - provavelmente milhares - de anos, vaqueiros e pecuaristas se decepcionaram com gêmeos de sexos opostos, porque a fêmea nasce estéril. É uma freemartin. A origem desse termo se perdeu num nevoeiro lexicológico, mas ele é usado desde o século XVII para se referir à gêmea de um bezerro nascida estéril. Quase sempre ela é estéril; seu irmão, em geral, é perfeitamente normal.Em 1916 e 1917, Frank Lillie, da Universidade de Chicago, começou a fuçar dentro das bezerras estéreis. Ele descobriu que com frequência elas tinham ovotéstis, uma amalgamação de gônadas masculina e feminina. Eram hermafroditas - o resultado da fertilização de dois óvulos diferentes por dois espermatozoides diferentes, resultando embriões de sexos opostos que se fundem e compartilham do mesmo suprimento de sangue. O feto do macho, percebeu Lillie, começava a fabricar hormônios específicos dos machos (a testosterona só descrita em 1935, portanto Lillie não tinha um nome para os hormônios masculinos) antes de o motor hormonal do feto da fêmea começar a funcionar. Como eles compartilhavam o mesmo sangue, ela recebia uma dose de hormônios masculinos. Tornava-se masculinizada.
Trabalhos como o de Lillie disseminaram a ideia de que os hormônios desempenhavam funções de desenvolvimento importantes no útero, mas só em 1959 foi que a ciência começou a entender como os hormônios pré-natais podiam afetar o comportamento. Um artigo de pesquisa intitulado “The Organizing Action of Prenatally Administered Testosterone Propionate on the Tissues Mediating Mating Bahavior in the Female Guinea Pig” tem a contenção sonífera comum a artigos científicos inovadores, mas se tornou a base do que é conhecido como a hipótese organizacional. Larry e outros acreditam que os eventos que a hipótese descreve, estabelecem o circuito cerebral que influencia enormemente todos os nossos comportamentos básicos relacionados ao amor.
A essência da experiência descrita no artigo era bem simples. Charles H. Phoenix e seus colegas da Universidade do Kansas injetaram testosterona em porquinhas-da-índia prenhas e depois esperaram para ver o que acontecia com seus filhotes. Quando eles nasceram, as fêmeas que haviam recebido doses mais elevadas de testosterona apresentavam o que um médico chamaria de genitália ambígua. Phoenix mais tarde pôs essas fêmeas no calor com injeções de hormônios e depois imitou o modo como os roedores machos solicitam sexo, que consiste em afagar a parte traseira do animal.
Quando está disposta, a fêmea do roedor se comporta como uma modelo de roupa de banho durante uma sessão de fotos: ela empina as costas e mostra a traseira, um convite para sinalizar que está receptiva. Isso se chama lordose. Quando um macho solicitante vê uma lordose, monta na fêmea. Quando Phoenix afagou as porquinhas-da-índia cujas mães haviam recebido testosterona, elas não apresentaram comportamento de lordose algum. Porém, agiram bastante como se quisessem montar - mais ou menos com a mesma frequência dos machos. O hormônio não havia alterado apenas os corpos dos filhotes que eram fêmeas, mas também seu comportamento. Isso significa que mudou seus cérebros.

Continua…

l&b

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